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quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Cotas para negros, encontros de saberes para indígenas: gramática da inclusão étnico-racial no ensino superior

 


Resumo

O texto analisa a gramática mobilizada na arena pública que se formou a partir das discussões sobre políticas de inclusão étnico-racial no Brasil, mostrando convergências e diferenças no vocabulário e nas estratégias de ação de defensores de ações afirmativas destinadas a pessoas negras e indígenas. Examina em detalhe o debate que culminou na criação de um vestibular indígena na Unicamp em 2018, como parte de um programa mais amplo de ações afirmativas.

Palavras-chave: indígenas; ensino superior; ações afirmativas; cotas

http://dx.doi.org/10.25091/S01013300202400020005

https://novosestudos.com.br/produto/edicao-129/#670065647ff13

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

Mérito Científico PIBIC: Um olhar sobre indígenas em universidades privadas, de Rafael Novais







Prezado(a) Prof(ª). Dr(ª) JOSE MAURICIO PAIVA ANDION ARRUTI
IFCH
C/c. Aluno(a) Rafael Rocha Novais

A Pró-Reitoria de Pesquisa da UNICAMP tem o prazer de agraciar com Mérito Científico o trabalho "Um olhar sobre indígenas em universidades privadas: aproximações a uma maioria “invisível"" apresentado pelo(a) aluno(a) Rafael Rocha Novais (em cópia) e desenvolvido sob a orientação de V.Sa. O referido trabalho foi avaliado como um dos 20 melhores trabalhos de Iniciação Científica apresentados durante o XXX Congresso de Iniciação Científica da Unicamp.

A Pró-Reitoria de Pesquisa congratula V.Sa. e o(a) aluno(a) pela distinção obtida por seu trabalho junto ao referido Congresso.

Enviaremos os certificados de Mérito Científico diretamente aos orientadores responsáveis, via malote da Universidade.

Como informado anteriormente, haverá uma premiação em espécie, no valor de R$3000,00 (três mil reais, bruto) aos alunos agraciados com Mérito Científico durante o evento; deste valor serão descontados os impostos devidos. O depósito deste valor será realizado no mês de janeiro de 2023.

[...]

Na oportunidade, renovamos-lhes os protestos de estima e consideração.

Atenciosamente,

Prof. Dr. João Marcos Travassos Romano
Pró-reitor de Pesquisa
UNICAMP



quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Atuação da Defensoria Pública na Tutela Coletiva de Populações Tradicionais em São Paulo (projeto de Apoio aos Estudantes)

Um prazer ver as Bolsistas BAS Katharina, Aimee, Brenda e Mariane se mobilizando para apresentar um pouco da nossa experiência de pesquisa, formação e extensão no V Congresso de Projetos de Apoio e no II Seminário Internacional de Serviços de Apio ao Estudante:




Trechos:

INTRODUÇÃO

O projeto realiza atividades conjuntas nas áreas de pesquisa e extensão, visando a identificação e mapeamento das dinâmicas de violações de direitos e o levantamento de demandas das comunidades quilombolas, assim como a construção de diagnósticos acerca da atuação da Defensoria Pública nesse campo temático, em parceria com as Defensorias Públicas Estaduais e da União, com o Afro-Cebrap, o Fórum Justiça e a CONAQ – Coordenação Nacional de Comunidades Quilombolas, entre outras.

OBJETIVOS DO PROJETO

O objetivo da pesquisa é buscar um diagnóstico sobre a atuação das Defensorias Públicas nas demandas judiciais e extrajudiciais que envolvam as Comunidades Quilombolas, visando o fortalecimento da relação entre as comunidades e as Defensorias dos respectivos estados, ouvindo suas demandas e necessidades, além da concretização da garantia de direitos

ATIVIDADES DESENVOLVIDAS PELOS BOLSISTAS

Pensando que as demandas das Comunidades variam de acordo com a região em que estão inseridas, as leituras dos dados são feitas de forma a separar os Estados e regiões federativas, da seguinte forma:
É realizada a coleta de dados no site da ANADEP (Associação nacional dos defensores públicos) e nos sites das Defensorias Públicas Estaduais dos respectivos Estados, filtrando as notícias a partir das ações das defensorias relacionadas especificamente às comunidades quilombolas.
Após a filtragem das notícias, elas são aglomeradas em uma base de dados, para que possam ser avaliadas de maneira geral e como conjuntos. Diagnosticando a atuação da Defensoria Pública nas demandas judiciais e extrajudiciais que envolvam Povos e Comunidades tradicionais.

RESULTADOS ALCANÇADOS:

Além da base de dados descrita, outros trabalhos são desenvolvidos a partir dela, como o “Boletim Panorama Quilombola – Mídia”, cujo foco está na curadoria e na crítica da abordagem da imprensa sobre o tema. A base de dados também oferece suporte aos Seminários Regionais com Defensorias e lideranças quilombolas, que acontecem de forma remota, com o objetivo de estreitar a relação da comunidade com a defensoria e ouvir as demandas quilombolas.

 


quarta-feira, 15 de junho de 2022

O que esperar do Censo quilombola de 2023?



 










Apesar de serem as bases de dados mais completas existentes no país, os Censos Demográficos não contêm informações sobre os territórios e as populações quilombolas. Isso começou a mudar no processo de preparação do censo de 2020 que, no entanto, foi irresponsavelmente frustrado pelos cortes de verbas do governo federal...

Texto integral em:

https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/o-que-esperar-do-censo-quilombola-de-2023

Cotas para quilombolas?

 



quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Seminário 2 anos do Afro-Cebrap

O Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do CEBRAP está completando dois anos de sua criação e realizará um seminário em que serão apresentadas as pesquisas desenvolvidas durante este período.







 

terça-feira, 30 de junho de 2020

Pesquisa e produção de conhecimento sobre quilombos

Pesquisa e produção de conhecimento sobre quilombos: entrevista com José Maurício Arruti

  • Benedito EugenioUniversidade Estadual do Sudoeste da Bahia
  • Wesley Santos de MatosSecretaria da Educação do Estado da Bahia

RESUMO

A pesquisa sobre quilombos tem se ampliado consideravelmente nos últimos anos, incorporando diferentes referenciais teóricos.  Dentre os pesquisadores que têm contribuído para a renovação dos estudos sobre comunidades quilombolas está José Maurício Arruti, doutor em Antropologia Social (UFRJ) e professor da Universidade Estadual de Campinas. O professor Arruti pesquisa comunidades quilombolas e povos indígenas, em especial sobre os temas Políticas de Reconhecimento, Território, Memória e Educação. Apresentamos, a seguir, a entrevista por ele concedida, em que discute aspectos de sua trajetória de formação, a produção de conhecimentos sobre comunidades quilombolas, a inserção na pesquisa sobre a temática, as principais dificuldades enfrentadas por essas comunidades no atual contexto de perda gradativa de direitos. Finalizamos a entrevista com o professor Arruti nos apontando sobre seus atuais interesses de ensino e pesquisa.


EUGENIO, Benedito; MATOS, Wesley Santos de. Pesquisa e produção de conhecimento sobre quilombos: entrevista com José Maurício Arruti. ODEERE, [S.l.], v. 5, n. 9, p. 23-48, jun. 2020. ISSN 2525-4715. Disponível em: <http://periodicos2.uesb.b
r/index.php/odeere/article/view/6881>. Acesso em: 24 jul. 2020. doi: https://doi.org/10.22481/odeere.v5i9.6881.

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Disciplina TEORIAS E EXPERIMENTAÇÕES ETNOGRÁFICAS (HZ360): LABORATÓRIO Etnografia em tempos de Pandemia

Disciplina
TEORIAS E EXPERIMENTAÇÕES ETNOGRÁFICAS (HZ360): LABORATÓRIO Etnografia em tempos de Pandemia

Prof. José Maurício Arruti
Monitores: Juliana Fidelis, Lais Marachini, Laura Andrade, Gustavo Gonçalves.

Contextualizando

O período de isolamento imposto pela pandemia de Covid19 implicou drásticas alterações no planejamento do nosso curso, como decorrência das drásticas alterações impostas às nossas vidas em geral. A singularidade da situação está nela ser compartilhada quase simultaneamente por metade dos habitantes do planeta. Um fenômeno inédito por suas dimensões e prováveis efeitos, que têm levado muitos a se perguntarem sobre quão profundas e duradouras serão as marcas dessas alterações em nossas vidas depois de encerrado o isolamento. Uma das dúvidas amplamente compartilhada é mesmo se o isolamento terá fim, ou se retornaremos à normalidade anterior a ele. Ao se discutir o pós-isolamente discute- se também o que seria este “novo normal”.

Há os que falem da perpetuação de vários dos efeitos que nos foram impostos como temporários, isto é, a normalização do fechamento das fronteiras nacionais, do distanciamento social, da precarização do trabalho via home office, do controle digital que alguns estados estão impondo às suas populações etc. Assim como há os que falem das oportunidades que este momento nos abre, ao eliminar a terceirização das nossas crianças e velhos, ao estancar o consumismo e impor uma paralisia ao movimento do capital que nenhum movimento social havia conseguido, ao nos permitir refletir sobre os impactos das alterações ambientais sobre o mundo etc.

Enfim, talvez não estejamos diante apenas de um fenômeno social, mas de uma nova instituição social. De uma forma ou de outra, cabe-nos como cientistas sociais ou, mais especificamente, como antropólogos, pensar estas novas formas de vida, de socialidade, de trabalho, de comunicação, de ritualização do cotidiano ou de alteração dos rituais tradicionais (como , por exemplo, os enterros, o esporte, as visitas familiares...) diante do fenômeno do isolamento e da extensão (colonização?) do mundo virtual (on-line) sobre o mundo presencial. O que isso está produzindo, quanto disso é transitório e quanto disso passará a constituir o nosso “novo normal”?

A proposta

Por mais que essas questões sejam angustiantes (ou justo por isso), elas também são boas para pensar. Assim, surge a proposta de convertermos os limites que foram impostos a este curso em matéria de reflexão do próprio curso, justamente abrindo um laboratório dedicado ao exercício do registro etnográfico sobre o que vem a ser a vida social sob o isolamento social.

Não estamos sendo originais nesta proposição. O volume de produção em ciências sociais sobre os efeitos da pandemia e do isolamento tem crescido a cada dia. Textos mais ou menos rápidos, mais ou menos confessionais, mais ou menos analíticos, mais ou menos etnográficos, têm se multiplicado na internet, muitos deles respaldados pelo selo de renomadas associações e instituições de pesquisa. Há até algumas iniciativas de registro das experiências pessoais diante desta situação, seja na forma de questionários sócio-epidemiológicos, seja na forma de repositório de depoimentos escritos ou de depoimentos gravados, a serem disponibilizados para os historiadores futuros. O projeto “Antropologia e Pandemia”, que realizamos em parceria com os professores Isadora França, Tanieli Rui (professores do Departamento de Antropologia), Gustavo Rossi e Bernardo Machado (pesquisadores pós-doc do PPGAS) tem por objetivo fazer um breve mapeamento desta produção. O primeiro episódio, já disponível, faz um apanhado geral de algumas dessas iniciativas. Os quatro próximos episódios programados pretendem falar sobre como alguns temas emergem nesta produção: A etnografia da pandemia; Pandemia, desigualdades e relações raciais; Pandemia, violência e gênero; e, finalmente, Pandemia e fins do mundo.

Enquanto lemos a bibliografia básica sobre etnografia e acompanhamos as reflexões oferecidas pelo projeto Antropologia e Pandemia, o nosso laboratório deve estimular a produção e discussão das nossas próprias etnografias sobre e neste isolamento social. Acrescentaremos ainda a este conjunto, a discussão sobre dois conceitos possivelmente úteis neste contexto: auto-etnografia e etnografia on-line.

Metodologia

O curso passará a contar com três tipos de atividades, desenvolvidas de forma articulada, em aulas alternadas.

  • Aulas expositivas e discussão bibliográfica: dando continuidade às 3 aulas iniciais, leremos etnografias (ou comentários a elas) sobre temas afins à nossa condição atual de pandemia e isolamento social;

  • Resenhas da produção recente em Ciências Sociais sobre a Pandemia: debateremos os episódios do projeto “Antropologia e Pandemia” e textos dos alunos inspirados nesses episódios. Neste caso, a tarefa dos alunos é realizar uma resenha que busque destacar nos artigos selecionados (de três a seis) suas qualidades etnográficas: a) de conteúdo: quando os artigos contribuem na construção de uma leitura etnográfica de um determinado assunto de interesse

(país, região, tema, instituição, recorte social etc.); ou b) de forma: quando os artigos podem oferecer bons exemplos de como elaborar uma perspectiva etnográfica mesmo em situação de isolamento.

Produção de relatos: discutiremos breves ensaios dos próprios alunos inspirados na ideia de ‘etnografia da pandemia’. Neste caso, os alunos devem escolher uma data (dentre as disponibilizadas) para apresentar seus relatos preliminares (que devem ter entre 60 e 90 linhas), enviando-os para o e-mail do professor e dos monitores com uma semana de antecedência, de forma que ele possa ser socializado com a turma. Os relatos deverão ser lidos em aula, abrindo-se para o seu debate logo em seguida. Com base nas contribuições trazidas por esses debates, os alunos deverão apresentar a versão final dos seus relatos (textos de 90 a 180 linhas) até o encerramento do semestre.

Avaliação

A avaliação neste semestre, conforme orientação geral adotada pelo IFCH, consistirá na atribuição de um conceito único S (suficiente) para todos os alunos que participarem da disciplina, restando a opção de conceito F (falta) para os alunos que não participarem. A participação será caracterizada pela realização de parte das atividades previstas acima: pelo menos duas Resenhas da produção recente em Ciências Sociais sobre a Pandemia e as duas Produções de relatos individuais (preliminar e final). O conceito F pode ser substituído pelo conceito S até o final do semestre seguinte, mediante a entrega das atividades descritas, acompanhadas de justificativa. No caso de não ser possível caracterizar participação no prazo previsto, o conceito atribuído será I (insuficiente), o que significa reprovação na disciplina.

Peço atenção ao PARECER DA CONGREGAÇÃO No 169/2020, postado no mural da turma (em especial os itens de 4 a 7), que orienta docentes e discente com relação aos procedimentos no caso de dificuldade ou impossibilidade de participação na disciplina.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Pankararu são convidados pela Cátedra Kaapora, da UNIFESP, para evento sobre 80 anos da Missão Folclórica


Logotipo da Unifesp
Dia 7 de novembro, Teatro Adamastor Pimentas, Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH/Unifesp) - Campus Guarulhos.
Mais de 120 estudantess e professores de diferentes cursos da EFLCH/Unifesp participaram do evento Os trajes de encantados Pankararu: da Missão de Pesquisas Folclóricas à São Paulo de hoje, promovido pela Cátedra Kaapora, vinculada à Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Proec). Além de representantes da comunidade Pankararu que vive em São Paulo (cerca de 180 famílias), participaram de uma mesa de debate o etnomusicólogo Alberto Ikeda, professor aposentado da Universidade Estudual Paulista (Unesp) e membro da Kaapora, e o antropólogo José Maurício Arruti, professor na Universidade Estudual de Campis (Unicamp). 

Pankararu portal 1
Os praiás Pankararu na Unifesp (Foto: Valéria Macedo)

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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

A destruição do Museu Nacional é a marca mais dolorosa do momento crítico a que a sociedade brasileira chegou

Ao assistir ontem a noite às cenas do incêndio na TV, fiquei mudo e perplexo. Minha primeira reação só veio depois de passar horas assistindo ao incêndio, como para me certificar de que aquilo não era só um pesadelo. Enviei uma breve mensagem para amigos e para colegas de outros países com o máximo que podia expressar no momento: “O museu nacional do Rio de Janeiro completamente destruído pelo fogo, que já dura 5 horas. 200 anos de história científica. Milhares de anos de fontes documentais. Uma das melhores bibliotecas de antropologia do pais. Uma centena de carreiras destruídas. Uma tragédia inestimável, que é a metáfora de uma tragédia ainda maior”. Fui dormir com o peito apertado de dor, raiva e medo.

Estudei no Museu Nacional por mais de dez anos. Comecei em 1989, antes de entrar no mestrado, como estagiário, recém formado em História, do grupo PETI – Projeto Estudo sobre Terras Indígenas. Trabalhei no arquivo histórico e etnológico que a equipe do PETI havia reunido, sob a coordenação dos professores João Pacheco e Antônio C. S. Lima, e que daria origem ao Atlas dos Povos Indígenas do Nordeste (1990). Neste período me encantei com os debates públicos promovidos por professores e estudantes do PPGAS-MN sobre as políticas públicas para indígenas, e que tinham repercussões reais sobre estas mesmas políticas. Uma experiência que me apontou a possibilidade de fundir História e Antropologia, assim como de fazer isso com alguma potência transformadora sobre a realidade.

Depois foram dez anos como aluno, em uma época em que os tempos de pesquisa e redação regulamentares de uma dissertação e de uma tese eram quatro e seis anos. A formação no PPGAS do Museu Nacional é uma marca profunda em todos que passaram por lá. Éramos alunos dos principais nomes formadores da Antropologia brasileira em várias das suas sub-áreas e isso nos era cobrado macia e constantemente. Em torno de um dos pátios internos do grande prédio do Museu Nacional ficavam a sala de aula, as salas dos professores, a secretaria e a Biblioteca Francisca Keller, uma fonte de pesquisa inesgotável, que nos dava acesso tanto à história das Ciências Sociais brasileiras, quanto à bibliografia antropológica internacional mais atualizada.

Entre uma atividade e outra, atravessávamos o pátio como quem atravessa um cenário suspenso no tempo, silencioso e cerimonioso, mas que, desde então, mostrava o desgaste da falta de recursos. Já eram dilemas para a administração da época, tanto a falta de espaço para o contínuo crescimento da biblioteca, quanto o risco que todos nós corríamos com a queda de um ou outro pedaço de reboco do beiral do prédio histórico. Isso contrastava com a certeza de que estávamos imersos em um espaço de saber e ciência, que todos nós reverenciávamos, e cuja alegoria eram os corredores de paredes cobertas de móveis centenários de madeira, com gavetas de fichas de catálogo ou com vitrines que expunham milhares de minúsculas e maiúsculas peças arqueológicas.

O Museu Nacional era uma das nossas instituições maiores, em todos os sentidos. Símbolo da possibilidade que o trabalho intelectual tem em converter um projeto civilizatório imperial em um projeto civilizatório democrático, forjado na luta do saber contra preconceitos, racismos e relações de poder desiguais. Esta instituição foi destruída, não por um acidente, mas por um projeto político concorrente. A destruição do Museu Nacional é a marca mais dolorosa do momento crítico a que a sociedade nacional chegou, ao se degradar na política da ignorância, da opinião sustentada no meme, do egoísmo transformado em teologia, do mercado que não alimenta, mas que se alimenta da vida. A destruição do Museu Nacional é o ato mais espetacular de uma sucessão de atos destinados à destruir a ciência, a arte, a história e a memória brasileiras.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

Rubinho, Rubem Ferreira Thomaz de Almeida

Homenagem ao Rubinho
Os pesquisadores e pesquisadoras do Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena da UNICAMP prestam homenagem à memória do colega, antropólogo e militante das causas indígenas, Rubem Ferreira Thomaz de Almeida, falecido ontem.
Rubinho, como era chamado carinhosamente por todos, atuou por mais de 45 anos (sete deles morando em aldeias) junto aos Guarani-Kaiowa, Guarani-Ñandéva e Guarani-Mbya do ES, RJ, SP, PR, RS e MS, produzindo projetos, pareceres, relatórios e atuando diretamente pela regularização de suas terras e na gestão dos seus territórios.
Sustentado em uma graduação em Ciências Econômicas (FMU-SP, 1975) e outra em Ciências Sociais (USP, 1977) Rubinho fez o seu mestrado em Antropologia Social no Museu Nacional do Rio de Janeiro (1991) sobre o projeto que ele mesmo ajudou a implantar junto aos Guarani e no qual atuou por dez anos (1976-1986), como um ator do campo de ação indigenista. O texto da dissertação, que consistiu em uma reflexão crítica sobre os “projetos de desenvolvimento comunitário”, foi publicado em livro dez anos mais tarde: Do Desenvolvimento Comunitário à Mobilização Política: O Projeto Kaiowa-Ñandeva como Experiência Antropológica. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 2001. Depois disso, sem deixar de atuar junto aos Guarani, contribui na formação de uma ou mais gerações de pesquisadores interessados na cultura e no destino dos Guarani.
O CPEI se reúne aos familiares de Rubinho, em especial sua filha Helena Dabul Thomaz de Almeida e sua esposa Juliana Silveira Torres, aos seus amigos, colegas e colaboradores, em especial os Guarani, neste momento silencio, saudade e reflexão.

Foto: portal ABA

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Antropologia e política no Brasil – do carisma ao crime



Antropologia e política no Brasil – do carisma ao crime
(esboço de curso sobre política, teoria, ética, etnografia, laudos periciais e  comissões parlamentares de inquérito)


segunda-feira, 13 de junho de 2016

Políticas de cotas na pós-graduação do IFCH: resultados e reflexões

13/06, 9h-18h
Local: Auditório do IFCH

Em 2015, cinco programas de pós-graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da UNICAMP implementaram cotas étnico-raciais para o ingresso em seus cursos de PósGraduação. A implementação é o resultado de um processo longo, no qual indivíduos, grupos e coletivos, discentes, docentes, funcionários e funcionárias compreenderam a Universidade como um espaço de exclusão, e cada vez mais excludente conforme se sobe na escala dos títulos acadêmicos. Assim, compreendemos que era preciso transformar as injustiças históricas que impediam seus acessos aos níveis superiores de educação, em direitos que buscassem tornar o espaço acadêmico mais aberto à diversidade étnico-racial. Dessa forma, em 2016 ingressaram nos Programas de História, Sociologia, Ciências, Antropologia e Ciências Políticas 25 alunos e alunas pelo sistema de cotas, representando 18% do total de ingressantes. O que isso significa para a Universidade em termos de pesquisa, ensino e extensão? O que isso significa para os ingressantes e para os grupos envolvidos? O que a Universidade precisa fazer para expandir a política de cotas e torná-la mais inclusiva? Como devemos lidar com as cotas em uma sociedade no qual o racismo é insistentemente presente? Estamos no início de um processo. Temos muitas perguntas e grandes expectativas.
No evento “POLÍTICAS DE COTAS NA PÓS-GRADUAÇÃO DO IFCH: RESULTADOS E REFLEXÕES”, a Comissão de Pós-Graduação do IFCH e os cinco programas que implementaram cotas convidam os agentes envolvidos no processo de implementação da política no IFCH, bem como especialistas em ações afirmativas para um balanço de nossa experiência e para uma reflexão sobre esta iniciativa.

Programa:

09h00 - Abertura
Profa Rachel Meneguello (Pró-Reitoria de Pós-Graduação – PRPG)
Prof. Jorge Coli (Direção IFCH)
Prof. Marcos Tognon (Comissão de Pós-Graduação – CPG/IFCH)
Representante do Comando de Greve IFCH

09h30 – Mesa 1 – Implementação das cotas na pós-graduação do IFCH
Representante da Frente Pró-Cotas IFCH
Coordenadores dos Programas de Pós-Graduação do IFCH:
Prof. Antonio Roberto Guerreiro Junior (Antropologia Social)
Prof. Oswaldo Martins Estanislau do Amaral (Ciência Política)
Prof. José Maurício Paiva Andion Arruti (Ciências Sociais)
Prof. José Alves de Freitas Neto (História);
Prof. Michel Nicolau Netto (Sociologia).
Mediação: Prof. Marcos Tognon (UNICAMP/IFCH)

11h30 – Mesa 2 – Discentes ingressantes 2016 no sistema de cotas
Representação discente
Mediação: Prof. Mário Augusto Medeiros da Silva
(UNICAMP/IFCH)

12h30 – Almoço

14h00 - Mesa 3 – Experiências brasileiras em políticas de ação afirmativa
Profa Nilcea Freire (UERJ)
Profa Márcia Lima (USP)
Prof. Luiz Augusto de Souza Carneiro de Campos (IESP, UERJ)
Profa Débora Jeffrey (UNICAMP/FE)
Mediação: Prof. José Maurício Paiva Andion Arruti (UNICAMP/IFCH)

16h00 – Mesa 4 – Política de cotas e novos desafios da
UNICAMP
Profa Sandra G. Unbehaum (Fundação Carlos Chagas)
Profa Amélia Artes (Fundação Carlos Chagas)
Representante do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE/UNICAMP)
Mediação: Prof. Michel Nicolau Netto (UNICAMP/IFCH)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Manifesto dos docentes do IFCH-Unicamp contra o golpe e o governo ilegítimo de Temer

Os professores do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH-Unicamp) denunciam que o processo de impeachment do governo de Dilma Rousseff é um golpe contra as instituições democráticas, os movimentos sociais e as lutas por direitos em sentido amplo. Repudiam a farsa político-jurídica que atribui à presidenta Dilma crimes de responsabilidade, assim como aderem ao posicionamento da Corte Interamericana de Direitos Humanos de que não há no referido processo de impeachment elementos comprobatórios ou indícios dos crimes que lhe são imputados.
Como se depreende da adesão a esse posicionamento, os professores entendem que o processo de impeachment, conquanto instrumento previsto na Constituição, foi conduzido num clima de revanchismo e vingança política, como ficou evidente pela votação ocorrida na Câmara dos Deputados em 17 de abril do corrente ano; constituindo-se, assim, num atentado às regras básicas da cidadania e da democracia, em usurpação de poder e escárnio da soberania popular alicerçada no voto de 54.501.118 cidadãos que elegeram a presidenta Dilma Rousseff.
Os professores compreendem, igualmente, que o processo de impeachment no presente caso é um artifício construído pelos monopólios da mídia, arbitrado pela crescente e invasiva judicialização da política, perpetrado pela perfídia de deputados e senadores e por poderosos grupos de interesses, dentro e fora do país. Estes grupos estão claramente envolvidos em um projeto privatista, de diminuição do Estado, em detrimento de programas sociais.
Os docentes do IFCH reiteram que o “governo Temer” não é legítimo e está empenhado em estabelecer uma clara política de exclusão social, de subtração de direitos e de fragilização do combate à corrupção. Isso se expressa na composição de um ministério formado exclusivamente por homens brancos, dentre os quais, 78% são milionários, 31% donos de rádio e TV e 31% citados na operação Lava-Jato (dados do site do INESC).
A retirada de direitos e a nova política de exclusão social estão expressas na recomposição do ordenamento institucional da União pela MP 726/2016. Esta estabelece, entre outras coisas, a extinção da Secretaria de Políticas para as Mulheres, para a Igualdade Racial e de Direitos Humanos cujo efeito é o de tornar invisíveis e não mais contemplar as questões relativas a populações historicamente discriminadas, como mulheres, negros, LGBT, indígenas, quilombolas, entre outras; a transformação do Ministério do Trabalho e Previdência em “Ministério do Trabalho” com a transferência da Previdência para o Ministério da Fazenda explicitando o compromisso deste governo interino com uma reforma previdenciária que considera relativa a noção de direitos adquiridos e, além disso, pretende implementar a terceirização de maneira ilimitada; o desaparecimento dos programas sociais do conjunto de atribuições do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, transformado em “Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário”, ficando doravante encarregado de questões relativas à pasta da Indústria e Comércio; o rebaixamento do Ministério da Cultura a uma secretaria vinculada ao Ministério da Educação, algo que vilipendia as conquistas recentes em políticas culturais; e a junção do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação ao Ministério das Comunicações, sem qualquer diálogo com a comunidade acadêmica.
Quanto à fragilização do combate à corrupção, ela se expressa na figura de um presidente citado em investigações de corrupção e condenado a oito anos de inelegibilidade por doações ilegais de campanha – conforme decisão recente do TRE-SP –, assim como, na composição de seu ministério, integrado por sete ministros citados na operação Lava-Jato. Além disso, a extinção da Controladoria Geral da União e sua transformação em Ministério de Transparência Fiscalização e Controle é uma clara sinalização de que o controle e enfrentamento da corrupção interna ao governo será limitado, pois a CGU, enquanto órgão diretamente vinculado à presidência da República, tinha autonomia para a investigação de todos os órgãos da União.
Há, ainda, a ameaça de aprovação de uma proposta de emenda constitucional que já vem sendo chamada de “Super DRU” (Desvinculação de Receitas da União). Esta proposta desvinculará receitas previstas na Constituição para União, Estados e Municípios, que definem percentual mínimo orçamentário para a saúde e educação. Ou seja, trata-se de uma medida que, se vier a ser aprovada, retirará recursos existentes para a garantia de direitos sociais constitucionais em nome do famigerado ajuste fiscal.
Alertamos também para a necessidade de resistirmos à aprovação do PLP 257/16, que vincula o remanejamento das dívidas dos estados com a União e, caso seja implementado, poderá eliminar direitos relativos à carreira dos servidores públicos e suspender a contratação de pessoal, assim como a criação de cargos, empregos e funções; impedir mudanças nas carreiras dos servidores; congelar salários; limitar reajustes do salário mínimo ao nível da inflação; e instituir “programas de desligamento voluntário e licença incentivada de servidores e empregados”. No caso das universidades públicas, o PLP elimina sua autonomia para determinar políticas de funcionamento que as consagraram como espaços vitais para a formação profissional e cidadã e como principais vetores da produção científica no Brasil.
Estas transformações políticas são apenas alguns dos exemplos dos caminhos autoritários escolhidos por este governo interino para gerir o país. As mudanças no plano das políticas públicas terão efeitos imediatos na sociedade, impactando diretamente as populações historicamente discriminadas pela ausência de representação e estrangulamento das políticas sociais; os movimentos sociais, pela criminalização de suas ações; as instituições representativas dos trabalhadores, por meio de uma reforma trabalhista e previdenciária submetida aos imperativos da produtividade. Estes são os primeiros sinais de uma política elitista e alicerçada na segregação em termos de raça, gênero, sexualidade e classe.
Pelos motivos acima expostos, nós, professores do IFCH-Unicamp, nos manifestamos contra o golpe e contra esse governo ilegítimo que procura se estabelecer em nosso país.

Docentes do IFCH-Unicamp reunidos em 18 de maio de 2016

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Disciplina HZ 260 B - Antropologia II - Troca, Sociedade e Estrutura

Antropologia II - Troca, Sociedade e Estrutura - HZ 260 B
2o semestre de 2015
Professor responsável: José Maurício Arruti
Professor colaborador : Omar Ribeiro Thomaz: aulas 1 a 5)
Horário: terça-feira - 19:00 às 23:00 (CB13)

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EMENTA

Esta disciplina pretende apresentar as principais discussões antropológicas em torno de troca, sociedade e estrutura. Através de uma apreciação crítica sobre estas noções na trajetória da disciplina, serão lidos textos fundamentais da teoria e etnografia antropológica, considerando os distintos contextos do pensamento dos autores que serão focalizados. As relações de troca, dádiva e reciprocidade foram fundadoras de um olhar antropológico que vai de Durkheim e Mauss a Malinowski e Lévi-Strauss e retomados em Strathern, entre outros. A antropologia social britânica baseou-se na ideia de que o seu objeto de estudo seriam as relações estruturantes da sociedade. É o caso de Radcliffe-Brown, Evans-Pritchard, Leach e dos antropólogos da Escola de Manchester, com diferenças notórias entre si, e mesmo alterando-se nas trajetórias de alguns destes antropólogos. Em Lévi-Strauss a noção de estrutura torna-se menos sociocentrada e mais comprometida com um modelo de análise simbólica. Estes conceitos são ainda debatidos, criticados, reinventados ou recusados em novas propostas conceituais.

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PROGRAMA

AULA 1 – 04/08 - APRESENTAÇÃO DA EMENTA E PROGRAMA DO CURSO

I

AULA 2 – 11/08 – DA FUNÇÃO À ESTRUTURA: DE RADCLIFFE-BROWN A EVANS-PRITCHARD

A. R. Radcliffe-Brown. “Sobre o conceito de função em Ciências Sociais” (pp. 161-168) e “Sobre a estrutura social” (pp. 169-182). In:Estrutura e função na sociedade primitiva. [1935-1940]. São Paulo: Editora Vozes, 2013.

E.E Evans-Pritchard. “Introdução” (pp. 4-21), “Capítulo 3: Tempo e Espaço” (pp. 107-150)., “Capítulo 5: O sistema de linhagens (pp.201-256)” e “Resumo (pp. 270-276)”. In: Os Nuer. [1940]. São Paulo: Perspectiva, 1999.

Leitura complementar:

Adam Kuper. “Da função à estrutura” (pp. 87-120). In KUPER, Adam. Antropólogos e antropologia, Rio de Janeiro: Francisco Alves.

Julio Cezar Melatti. “Introdução”. In. J. C. Melatti (org.) Radcliffe-Brown: Antropologia. São Paulo: Ática, 1978.


AULA 3 – 18/08 –DA ESTRUTURA SOCIAL À POLÍTICA: DE EVANS-PRITCHARD À ESCOLA DE MANCHESTER

E.E Evans-Pritchard.. “Capítulo 4: O sistema político” (pp. 151-200). In: Os Nuer. [1940]. São Paulo: Perspectiva, 1999.

E.E Evans-Pritchard e Mayer Fortes. “Introdução” (PP. 25-62). In: Sistemas Políticos Africanos. [1940]. Lisboa: F. G. Gulbenkian, 1981.

Max Gluckman. “Análise de uma situação social na Zululândia moderna” (pp. 227-267). [1940] In: Antropologia das sociedades contemporâneas (org. Bela Feldman-Bianco), São Paulo: Global, 1987.

Victor Turner. “Liminaridade e Communitas” (pp. 97-126). [1969] In: O Processo Ritual. Estrutura e Anti-Estrutura. Petrópolis: Vozes, 2013.

Leitura complementar:

Luis Roberto Cardoso de Oliveira. As categorias do entendimento e a noção de tempo e espaço entre os Nuer. Série Antropologia 137, Brasília, 1993.

Beatriz Perrone-Moisés. “Conflitos recentes, estruturas persistentes: notícias do Sudão”. In:Revista de Antropologia, vol.44, no.2, São Paulo, 2001.

Bela Feldman-Bianco. “Introdução” (pp. 19-56). In: Antropologia das sociedades contemporâneas (org. Bela Feldman-Bianco), São Paulo: Global, 2009.


AULA 4 – 25/08 –DA ESTRUTURA SOCIAL À ANÁLISE ESTRUTURAL: LÉVI-STRAUSS

Claude Lévi-Strauss. “Capítulo II: A análise estrutural em Linguística e em Antropologia” (pp. 45-70) e “Capítulo IV: Linguística e Antropologia” (pp. 85-99). [1945-1953]. In: Antropologia estrutural: Tempo Brasileiro. Rio de Janeiro, 1967.

Leitura complementar:

Claude Lévi-Strauss. “Capítulo IX: As lições da linguística” (pp. 201-212). [1983]. In: O Olhar Distanciado. Lisboa: Edições 70, 1986.

F. de Saussure. “O objeto da linguística” (pp. 15-25), “Natureza do signo linguístico” (pp. 79-93) e “A linguística estática e a linguística evolutiva” (pp. 94-116). [1916]. In: Curso de Linguística Geral, São Paulo: Cultrix, 1971.


AULA 5 – 01/09 – AVALIAÇÃO I

II

AULA 6 – 08/09 - SOCIEDADE E TROCA: DE MALINOWSKI A MAUSS

Bronislaw Malinowski. “Introdução” (pp. 17-34) e “As características essenciais do Kula” (pp. 50-86). [1922]. In: Argonautas do pacífico ocidental. Coleção “Os pensadores”. São Paulo: Editora Abril, 1998.

Bronislaw Malinowski. “A lei e a ordem primitivas” (pp.49-67) e “A teoria funcional” (pp. 169-188).In: E. R. Durham (org.) Malinowski (Antropologia). Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Editora Ática, 1981.

Marcel Mauss. “Ensaio sobre a dádiva – forma e razão da troca nas sociedades arcaicas” [1923-24]. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac &Naify, 2003. [“Introdução”, “As dádivas trocadas e a obrigação de retribuí-las”; “Extensão desse sistema”; “Conclusão”. pp. 185-264 e 294-314].

Leitura complementar:

Eunice Ribeiro Durham. “Introdução” (pp. 7-22). In: E. R. Durham (org.) Malinowski (Antropologia). Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Editora Ática, 1981.

Marcel Fournier. 1993. Marcel Mauss ou a dádiva de si. Rev. bras. Ci. Soc. v.8 n.21 São Paulo fev.

Marcos Lanna. 1992. Repensando a Troca Trobriandesa, in: Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 1992, v. 35, p. 129-148.

Marcos Lanna. 2000. Nota sobre Marcel Mauss e o Ensaio Sobre A Dádiva. Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 14: p. 173-194, jun.

Eric Sabourin. 2008. Marcel Mauss: da dádiva à questão da reciprocidade. Revista Brasileira De Ciências Sociais - vol. 23 nº. 66.

AULAS 7 e 8 – 15, 22/09 – TROCA E RECIPROCIDADE I: DE MAUSS A LEVI-STRAUSS

Claude Lévi-Strauss. “Capítulo V: o princípio de reciprocidade” (pp. 91-107) e “Capítulo XXIX : Os princípios do parentesco” (pp. 521-542). In: As estruturas elementares do parentesco[1949]. Petrópolis, Vozes, 1982.

Claude Lévi-Strauss. “Introdução à obra de Marcel Mauss” (pp. 11-46).[1950]. In MAUSS, Marcel. Sociologia e Antropologia. São Paulo, Cosac &Naify, 2003.

Leitura complementar:

Philippe Descola. 2009. Claude Lévi-Strauss por Philippe Descola (Entrevista) Estudos Avançados 23 (67).

Philippe Descola. 2009. Claude Lévi-Strauss – uma apresentação. Estudos Avançados 23 (67).



AULAS 8 – 22/09 – TROCA E RECIPROCIDADE II: COMENTÁRIOS À APROPRIAÇÃO LEVI-STRAUSSIANA

Maurice Merleau-Ponty. “De Mauss a Claude Lévi-Strauss” (pp. 381-396). In: Edmund Husserl e Maurice Merleau-Ponty. Coleção “Os pensadores”. São Paulo: Editora Abril, 1975.

Maniglier, Patrice. “De Mauss a Claude Lévi-Strauss, 50 anos depois: por uma ontologia Maori”. Cadernos de Campo [Online].

Dominique Temple. 2009. Origens antropológicas da reciprocidade.. S/L.

Lygia Sigaud. As vicissitudes do "ensaio sobre o dom". Mana [online]. 1999, pp. 89-123.

Leitura complementar:

Martins, Paulo Henrique. (2008). De Lévi-Strauss a M.A.U.S.S. - Movimento antiutilitarista nas ciências sociais: itinerários do dom. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 23(66), 105-130.



AULA 9 – 29/09 – TROCA, RECIPROCIDADE E ECONOMIA

Polanyi, Karl. “Sociedades e sistemas econômicos” (p.59-69) E “Apêndice – notas sobre as fontes” (p.261-265). In: A Grande Transformação – As origens da nossa época. Editora Campos. Rio de Janeiro. 1980.

Sahlins, Marshall. “A sociedade afluente original” ([1972] p. 105 – 152) e Cosmologias do Capitalismo: o setor transpacífico do sistema mundial ([1988] p. 443-500). In: Cultura na Prática. Coleção Etnologia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2004.

Clastres, Pierre. A economia primitiva. Arqueologia da Violência. Cap.8. p.173 - 195 Cosac e Naify, São Paulo, 2004.

Leitura complementar:

Dal Poz 2008 - Reciprocidade e endinheiramento nos Cintas-Largas.

Sabourin 2011 - Teoria da Reciprocidade e socioantropologia do desenvolvimento.



[Dia 06/10 não haverá aula / Encontro ALA – Ass. Lat. Am. de Antrop.]



AULA 10 – 13/10 – AVALIAÇÃO II


III

AULA 11 – 20/10 – CATEGORIAS E CLASSIFICAÇÕES: DE VOLTA A DURKHEIM E MAUSS

ÉmileDurkheim & Marcel Mauss. “Algumas formas primitivas de classificação” (pp. 183-203). [1903]. In: J. A. Rodrigues (org.) Durkheim (Sociologia). Coleção Grandes Cientistas Sociais. São Paulo: Editora Ática, 2000.

Émile Durkheim. “Introdução” (pp. 29-49) e “Conclusão” (pp. 492-526). In: As formas elementares da vida religiosa. São Paulo: Ed. Paulinas, 1989 [1912]

Leitura complementar:

Philippe Steiner. Religião e economia em Durkheim: duas formas de coesão social? R. Pós Ci. Soc. v.10, n.19, jan/jun. , PP. 31-46, 2013

Louis Pinto. Sociologia da religião e sociologia do conhecimento. R. Pós Ci. Soc. v.10, n.19, jan/jun. , PP. 69-78. 2013.



[Dia 27/10 não haverá aula / Ancontro ANPOCS – Ass. Nac. de Pesq. em C.S.]



AULA 12 – 03/11 – DO SOCIAL AO SIMBÓLICO: LÉVI-STRAUSS

Claude Lévi-Strauss. “Introdução” (pp: 11-26) e Capítulo 4: “Na direção do intelecto” (pp. 95-117). [1962]. In: O totemismo hoje. Lisboa: Edições 70, 1986.

Claude Lévi-Strauss. “A ciência do concreto” (pp.19-55). [1962].In: O pensamento selvagem. São Paulo: Ed. Nacional, 1976.

Leitura complementar:

Claude Lévi-Strauss. “Jean-Jacques Rousseau, fundador das ciências do homem” (pp: 41-51) [1962]. Antropologia estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.

Claude Lévi-Strauss. “Capítulo 1: A ilusão totêmica” (pp. 27-47). [1962]. In: O totemismo hoje. Lisboa: Edições 70, 1986.

Lévi-Strauss, Claude & Eribon, Didier.“Capítulo 11: Qualidades sensíveis” e “Capítulo 12: Os sioux, os filósofos e a ciência” (pp. 157-170). In:De perto e de longe. São Paulo: Cosac Naify, 2005.



IV

AULA 13 – 10/11 – REPENSANDO AS TROCAS NO TEMPO: A HISTÓRIA ESTRUTURAL DE SAHLINS

Marshal Sahlins. Ilhas de História [1985]. Rio de Janeiro: JZE, 1990.

Leitura complementar:

Marshal Sahlins. “Introdução: História e teoria estrutural” (19-28) e “Conclusão: estrutura na história” (125-134). In: Metáforas históricas e realidades míticas [1981]. Rio de Janeiro: JZE, 2008.



AULA 14 – 17/11 – REPENSANDO AS TROCAS ENTRE HOMENS E MULHERES: O RETORNO ÀS CLASSIFICAÇÕES DE STRATHERN

Marylin Strathern. “Estratégias antropológicas” (pp. 27-52) e “Domínios: modelos masculinos e femininos” (pp. 115-158). [1988] In: O gênero da dádiva. Campinas: Editora da Unicamp, 2006.

MarylinStrathern. “Partes e todos: refigurando relações” (pp. 241-262). In: O efeito etnográfico. São Paulo: CosacNaify, 2014.

Leitura complementar:

Marylin Strathern. “Sujeito ou objeto? As mulheres e a circulação de bens de valor nas Terras Altas da Nova Guiné” (pp. 109-132). In: O efeito etnográfico. São Paulo: Cosac e Naify, 2014.



AULA 15 – 10/11 – AVALIAÇÃO III

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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

PARA SAIRMOS DA POSIÇÃO REATIVA

O contexto de greve discente em que estivemos envolvidos, mesmo depois de dissipado, nos apresenta questões que exigem atenção e debate.
Esta greve tem seu estopim em um evento de máxima violência vivido no Campus, a morte de um estudante no contexto de uma festa considerada ilegal, mas tolerada pela Reitoria, do qual resultou o anúncio, mais tarde negado, de que esta mesma Reitoria autorizaria a presença da Polícia Militar no Campus. Reagindo a este anúncio, a greve dos estudantes da UNICAMP se apresenta, em parte, como desdobramento de uma mobilização nacional que, tendo origem nas jornadas de junho, foi prolongada até poucos dias pela luta dos professores de ensino publico do Rio de Janeiro e pelas amplas e intensas manifestações contra os leilões de campos do pré-sal promovidos pelo governo federal. Eventos de ponta a ponta marcado pela atuação violenta e arbitrária da polícia, e até mesmo do exército e da Força Nacional, sob beneplácito dos governos municipais, estaduais e federal.
Coincidentemente ou não, em meio à greve, chegou-nos ao conhecimento a decisão da Prefeitura do Campus – tomada, aliás, sem nos dirigir qualquer consulta prévia – de demolir a lanchonete do IFCH, importante espaço de sociabilidade de alunos, professores e visitantes, único remanescente da demolição ou desativação de espaços semelhantes no em torno do nosso instituto. É inegável o efeito preocupante que o encadeamento desses eventos, de escalas e qualidades tão distintas, mas todos dotados de significativa carga de violência, produz sobre todos nós.
De outro lado, a temporalidade da greve em nossa universidade encontra evidente correspondência com a greve dos estudantes de outra universidade estadual paulista, a USP, em cujas reivindicações por democratização da estrutura e dos mecanismos de tomada de decisão universitários nossos grevistas buscam se espelhar, reproduzindo os mesmos métodos, como os cadeiraços, apitaços e tais. Métodos que recentemente foram questionados por uma carta aberta assinada por uma fração significativa de professores da FFLCH, por substituírem o convencimento por ações coercitivas. Essa carta coletiva, assim como as imediatas reações a ela, individuais, mas igualmente públicas, circularam entre nós, provocando discussões pontuais, assim como evidenciando que nossa posição de silêncio e expectativa havia chegado a um limite delicado.
Em uma tênue tentativa de resposta a isso, foi convocada, por meio da lista geral de professores do IFCH da UNICAMP, uma reunião com o objetivo de iniciar a discussão sobre uma tomada de posição. Apesar de nosso instituto contar com pouco mais de cem professore plenos permanentes, apenas três puderam ou quiseram participar desta conversa. Quorum em si mesmo significativo do tipo de problema vivido por nossa comunidade acadêmica e parte do desafio a ser superado. Ainda assim, foi possível testar algumas idéias.
Em primeiro lugar, está claro que o debate, realizado predominantemente por meio de textos circulados na internet, sem nem mesmo o dialogo face-a-face, corre o risco de nos levar a uma espiral meta-discursiva onde predominam a retórica, as acusações ideológicas e os posicionamentos reativos, incapazes de produzir qualquer outro efeito além da simplificação e do acirramento das posições.
No lugar disso, e para além das críticas que possamos formular aos posicionamentos do movimento estudantil que optou pela greve e pelas barricadas, nos parece fundamental sair da posição reativa, para assumir a responsabilidade que nos cabe diante dos diagnósticos a que chegamos.
O mais elementar desses diagnósticos passa pela identificação de um esvaziamento e de um abandono (por displicência ou forçado) do nosso espaço comum. Espaços de sociabilidade ameaçados sem que saibamos por que razão, prédios fundamentais ao crescimento de nossas atividades acadêmicas eternamente inacabados, espaços de circulação pouco iluminados, um anfiteatro degradado e de uso precarizado, assembleias estudantis e reuniões de professores esvaziadas, limites disciplinares transformados em muros aparentemente intransponíveis, um ensimesmamento da universidade que dá as costas aos problemas e expectativas da comunidade do seu entorno. Tudo isso aponta para a necessidade de voltarmos a investir no cuidado e no cultivo do espaço e da vida em comum. Nenhum projeto político ou acadêmico pode abrir mão desta condição básica que, porém, nos está escapando.
Em função disso é necessário propor ações imediatas que tenham em vista dar conta do nosso espaço comum, recuperar uma noção solidária, crítica e vigorosa de comunidade acadêmica, eliminar a ideia, tornada quase um ethos da militância estudantil – e ao qual nós não podemos negar algum fundamento – de que há uma oposição entre o mundo dos estudantes e o mundo dos professores. Uma dicotomia francamente e erroneamente análoga à que define a relação entre o operário do chão de fábrica e o capataz ou diretor de fábrica. Tais ações imediatas não devem substituir o debate político sobre os temas postos em pauta pelo movimento estudantil e por nós mesmos em nossos diferentes engajamentos, mas devem criar ou reconstituir as condições do ambiente no qual tais debates possam ocorrer.
Uma greve não pode ser apresentada como uma oportunidade de discutir temas políticos na Universidade, porque isto é basicamente o mais importante que a Universidade deve fazer enquanto está em funcionamento, e não quando está parada. Por isso é preciso não retornar às aulas como se nada tivesse acontecido. É preciso sair da posição reativa e passar à pauta das ações que estão ao nosso alcance.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O Fórum Permanente “Inclusão e diversidade: políticas atuais e desafios para o futuro”

O Fórum Permanente “Inclusão e diversidade: políticas atuais e desafios para o futuro” pretende contribuir para o debate entre acadêmicos, movimentos sociais e autoridades governamentais, sobre as experiências e políticas de inclusão implementadas nas universidades públicas brasileiras. As discussões datam de vários anos e diferentes propostas e políticas têm sido adotadas pelas universidades. Ao final de um julgamento histórico, acompanhado atentamente por um grande número de brasileiros, no dia 27 de abril de 2012, os ministros do Supremo Tribunal Federal decidiram, por unanimidade, que a reserva de vagas em universidades públicas com base no sistema de cotas raciais é constitucional. Em 29 de agosto de 2012, a Lei 12.711 foi sancionada, determinando que as instituições federais de ensino superior reservem, em cada concurso de ingresso em seus cursos de graduação, “no mínimo 50% de suas vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas”. Nesse conjunto, o preenchimento das vagas deve acompanhar “a proporção no mínimo igual à de pretos, pardos e indígenas na população da unidade da Federação onde está instalada a instituição”.
As universidades estaduais paulistas adotam, entretanto, outras políticas de inclusão social e racial. O PAAIS/UNICAMP (desde 2004) prevê 30 pontos acrescidos na nota final para egressos da rede pública de ensino e mais 10 pontos para os "autodeclarados pretos, pardos e indígenas"; o INCLUSP/USP (desde 2007) também adota o sistema de acréscimo de pontos no vestibular, mas apenas para os egressos das escolas públicas; a UNESP recentemente adotou uma política de cotas para favorecer a inclusão de estudantes de escolas públicas, afrodescendentes e indígenas. A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e o próprio governo estadual têm projetos em andamento, com outras modalidades. A recente proposta do governo do Estado de São Paulo (Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista - PIMESP) teve uma grande repercussão nos movimentos sociais, movimentos estudantis e nos meios acadêmicos em geral.
É hora de retomar o debate numa perspectiva mais ampliada. As reflexões e práticas acumuladas ao longo dos últimos anos devem ser o ponto de partida para o aperfeiçoamento de novas propostas de inclusão social e racial. Esse Fórum pretende reunir dados e amadurecer propostas que poderão subsidiar programas de ação afirmativa nas universidades estaduais paulistas.omenagem ao amigo e colega, que nos deixou tão prematuramente.

MANHÃ
9h – Sessão de abertura

9h30 – Conferência de abertura
Luiza Bairros - Ministra de Estado Chefe da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial
Coordenação: Lucilene Reginaldo (UNICAMP)

10h30 – Mesa 1- Ações afirmativas e cotas: balanço e desafios
Jocélio Teles (UFBa)
Bruno Ferreira (Professor Kaigang, UFRGS)
Coordenação: Silvia H. Lara (UNICAMP)

TARDE
14h – Mesa 2 – As universidades paulistas e as ações afirmativas
Maria Walburga dos Santos (UFSCar)
Benedito Prezia (PUC-SP)
Coordenação: José Maurício Arruti (UNICAMP)

15h30 – Mesa 3 –Trajetórias individuais, experiências coletivas e políticas públicas
Francisca Navantino Paresi (Secretaria da Educação de Mato Grosso)
Álvaro Pereira do Nascimento (UFRRJ)
Coordenação: Luanda Sito (UNICAMP)

17h - Sessão de encerramento

18h – Lançamento do livro O impacto das cotas nas universidades brasileiras (2004-2012), organizado por Jocélio Teles
Local: Auditório II - IFCH

quinta-feira, 28 de março de 2013

John Manuel Monteiro (1956-2013)

Não fui orientando do John, nem nunca tive aulas com ele. Em princípio, não faço parte da “linhagem” – nas suas próprias palavras – que ele vinha criando na UNICAMP, cuja marca é uma abordagem histórica e política da etnologia, indígena e outras. Apesar disso, e da sua insistência em me tratar como um igual, sinto com relação a ele o tipo de dívida amorosa que se estabelece com os mestres.
Foi dele o meu primeiro convite para participar em um GT da ANPOCS, assim como foi dele o meu primeiro convite para uma banca de doutorado. Ele foi um leitor generoso em minha banca de doutorado e fez um prefácio ainda mais generoso para o livro que resultou dela. Em pouco tempo a sua erudição - por vezes surpreendente -, a sua capacidade de olhar para além dos limites disciplinares, o seu modo franco e transparente de se posicionar politicamente, assim como a sua capacidade de circular pelos mais diversos grupos – acadêmicos ou não – foram definindo para mim um modelo desejável de intelectual.
No último ano, porém, nos transformamos em colegas de departamento e, imediatamente a seguir, em parceiros. Muitos projetos brotaram de imediato, como se eles já existissem em algum lugar, apenas a espera da coabitação acadêmica.

Agora será necessário inventar o futuro mais uma vez.

A surpresa e o sofrimento pela morte de uma pessoa boa e de um amigo querido vêm acompanhadas, para nós, seus colegas de UNICAMP, do desamparo produzido pelo abrupto desaparecimento de uma pessoa que era importante e mesmo central de muitas formas, seja em nosso cotidiano ou em nossos projetos de futuro. No departamento de Antropologia e, deste o final do ano passado, na direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, a sua presença proporcionava a tranquilidade que os contextos exasperados por disputas de todo tipo nos exigem.

À dor soma-se o sentimento de uma responsabilidade que parece nos ultrapassar.

Por fim, se sua produção acadêmica foi precipitadamente transformada em obra, pelos limites impostos injusta e arbitrariamente por sua morte, a sua memória inspira um sentido ético do trabalho intelectual que permanecerá em aberto, a nos inspirar.

jm arruti

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

O primeiro ano na direção do CPEI (2012)


O Centro de Pesquisa em Etnologia Indígena foi criado em 1995, por iniciativa de quatro professores do Departamento de Antropologia - Robin Michael Wright, Vanessa Lea, Marcio Ferreira da Silva e John Manuel Monteiro - com o apoio de docentes do IEL - Instituto de Artes e do Instituto de Estudos da Linguagem. Seus principais objetivos eram proporcionar um local de referência para pesquisadores de diversos institutos e departamentos da UNICAMP que trabalhassem com temas ligados aos estudos indígenas, assim como diminuir a falta de articulação entre os diferentes níveis de pesquisa e ensino referentes à área de etnologia no próprio IFCH. Como o seu documento de fundação fazia referência, a criação do Centro ocorreu em um momento de amadurecimento do debate etnológico e indigenista no país, movimentado por um número crescente de centros de pesquisa e organizações não governamentais, aos quais a produção intelectual dos seus membros fundadores estava articulada. O CPEI tinha, assim, o objetivo também de incorporar plenamente esta produção, ao fornecer um canal institucional específico para o intercâmbio de pesquisadores, de publicações e de informações. Respondendo a estes objetivos, o seu plano de trabalho incluía dois tipos de iniciativas. De um lado, criação de uma agenda de eventos, composta por um Seminário Permanente de pesquisa e outras iniciativas pontuais, como cursos de extensão, mostras de vídeo e encontros de pesquisadores. De outro lado, a criação de duas linhas de publicações: um boletim informativo semestral - com notícias sobre pesquisas e eventos, e uma seção bibliográfica – e uma linha de publicações avulsas, com vistas a divulgar primeiras versões da produção dos membros do Centro e dos pesquisadores convidados para os seus seminários.

Este é o Relatório do CPEI para o ano de 2012 – também meu primeiro ano como professor do Departamento de Antropologia da UNICAMP e como coordenador do CPEI, por convite e em sucessão da profa. Vanessa Léa. Recuperar os termos sob os quais Centro foi criado há 17 anos é, por isso, uma forma interessante de introduzir as iniciativas que realizamos ao longo deste ano, assim como as nossas propostas para o próximo. Sem pretender qualquer análise extensa, é importante começar destacando alguns elementos que diferenciam o contexto atual do contexto de criação do CPEI.

Primeiro, no plano interno à UNICAMP houve, nos últimos anos, uma drástica redução do número de professores de todos os departamentos do IFCH e, em consequência, uma redução tanto nos quadros da etnologia indígena do Departamento de Antropologia quanto dos pesquisadores de outros departamentos interessados no tema.

No plano nacional, aquele contexto de ‘amadurecimento do debate etnológico’ e de florescimento de centros de pesquisa e de defesa da causa indígena foi substituído por um contexto sombrio de largo e franco ataque aos direitos indígenas, seja por parte da mídia, seja por força de uma Bancada Ruralista presente nos parlamentos Federal e estaduais ou, finalmente, em consequência das iniciativas do próprio Poder Executivo. Há uma retomada do desenvolvimentismo econômico que, assumindo a bandeira do ‘combate à miséria’, revive a pauta dos governos autoritários da década de 1970, fazendo tabula rasa das conquistas sociais e ambientais impulsionadas pelo entusiasmo cívico da redemocratização dos anos de 1980 e 90.

Outros três elementos são importantes para completar este quadro.

Das conquistas sociais dos anos 80-90 emergiram lutas de novas frações da população do campo no Brasil pelo reconhecimento de seus direitos que, de certa forma, se aproximam da questão indígena: ou por reivindicarem um modo de vida tradicional, ou por reivindicarem, além da tradicionalidade, um caráter étnico.

Além disso, tais lutas ganham tradução teórica e legal nas políticas de reconhecimento das diferenças, florescentes nos planos internacional e nacionais. Delas resultam diversas reavaliações das categorias classificatórias disponíveis – parte delas herança direta das relações coloniais – que alteram a linguagem dos movimentos sociais, dos Estados e o próprio repertório analítico das Ciências Sociais. Reflexo disso são os estudos teóricos e etnográficos, assim como os encontros acadêmicos que questionam a rigorosa separação que, na tradição do pensamento social brasileiro se constituiu entre os estudos sobre negros e os estudos sobre índios.

Finalmente, da expansão econômica do país nos anos 2000 e, da decorrente expansão dos quadros universitários federais e dos recursos destinados à pesquisa acadêmica, resultou também uma abertura do ‘campo’ etnográfico explorado pela Antropologia brasileira: multiplicam-se as pesquisas além fronteira, tanto em países fronteiriços quanto no Caribe e em África, atingindo também, em menor número, a Ásia e a Oceania.

Assim, de um lado temos a complexificação do campo étnico no Brasil, com o surgimento dos quilombos e das populações tradicionais demandando o interesse da etnologia e, de outro, temos uma expansão dos estudos etnológicos nacionais sobre outros territórios culturais.



Ao assumir coordenação, em abril passado, encontrei o CPEI animado por uma equipe muito ativa de estudantes da Pós-Graduação em Antropologia, que vinha organizando o chamado ‘Seminário Permanente’ – transformado, nos últimos anos, na atividade por excelência do Centro. Além do Seminário Permanente, estes mesmos estudantes também organizavam debates em torno dos seus próprios projetos de pesquisa, como uma forma de socializar temas, dificuldades e orientações.

A ideia que nos orientou neste primeiro ano foi, basicamente, garantir a continuidade destas iniciativas e a participação dos alunos, para em seguida, na medida do possível, ampliá-las na direção em que a mudança de contexto, evocada acima, parece exigir.

Para isso propusemos projetos de pesquisa e de eventos acadêmicos, iniciamos diálogos e parcerias com outros Centros de pesquisa e, finalmente, estimulamos os estudantes a se organizarem em grupos de trabalho mais bem definidos em torno de temas que aproveitassem a convergência entre seus interesses. Abaixo segue um sumário dessas iniciativas.

No campo dos projetos destinados à realização de eventos: Apresentamos, em parceria com o CERES (também da UNICAMP), projeto para a realização de um workshop nacional sobre o tema das classificações étnicas e suas sobreposições territoriais com áreas de preservação ambiental; Iniciamos diálogos com o AFUNDA (da UFSC) em torno de um seminário latinoamericano sobre a relação entre Antropologia e Estado, tendo em vista as novas políticas dirigidas às populações indígenas e afroamericanas tradicionais.

No campo dos projetos de pesquisa: Tivemos dois projetos aprovados, ligados ao grupo indígena Pankararu. De um lado abordando a sua produção artística e artesanal e, de outro, abordando o seu processo migratório entre o sertão de Pernambuco e a capital paulista, como porta de entrada para o tema dos índios nas cidades; E, finalmente, um projeto, em parceria com o NEPO (da UNICAMP) destinado a investigar etnograficamente as recentes mudanças introduzidas nos Censos Populacionais de países da América Latina que tem em vista visibilizar as suas diversidades internas, étnico-raciais, de cor ou nacionais.

No campo dos diálogos acadêmicos: Além das parcerias com o CERES e o NEPO, ambos da UNICAMP, e da aproximação com o AFUNDA, da UFSC, há também uma iniciativa de diálogo com a ‘DesiguALdades’ - Rede de Pesquisadores sediada na Universidade de Berlin, em torno do tema das Políticas de Reconhecimento e seus efeitos sobre os grupos étnicos no Brasil e demais países da América Latina.

Finalmente, no campo da organização interna do próprio CPEI: Estruturamos o trabalho de um Grupos de Pesquisa, em especial, dirigido especificamente para a análise do comportamento da imprensa diante da questão indígena; Apresentamos dois projetos a um edital interno à UNICAMP solicitando bolsistas para o apoio às nossas atividades; Iniciamos a reformulação do nosso site, de forma a torná-lo mais dinâmico e funcional; E, finalmente, iniciamos atividades aparentemente mais prosaicas, mas fundamentais à nossa melhor articulação, como a organização do nosso espaço físico e a aquisição de equipamentos como computadores e impressora.


Mas resta ainda muito a fazer. Além de dar conta das atividades de pesquisa e dos eventos científicos para os quais já garantimos recursos, temos como metas para 2013: Ampliar nossa incidência sobre o corpo discente da graduação, de forma a criar um novo fluxo de estudantes interessados na agenda do CPEI; Criar condições institucionais mais adequadas ao crescimento do Centro no interior da estrutura universitária; E, finalmente, articular teórica e academicamente a diversidade das nossas perspectivas de pesquisa, de forma a enfrentar os desafios colocados pela ampliação do campo da etnologia e pelas novas configurações das questões e dos estudos com povos indígenas.